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Na imagem de microscópio eletrônico, os vírus causadores da Covid SARS-CoV-2 (amarelos) emergem da superfície de células (azuis e rosas) numa cultura de laboratório. NIAID-RML / AP Photo

Estudo internacional que investigou os enigmas do coronavírus teve protagonismo brasileiro

Desde que começou a conviver com o vírus da COVID-19, em 2020, o mundo se deparou também com incertezas, desinformação e notícias falsas. Mas diante deste cenário desafiador, uma verdade emerge para os cientistas: quando a narrativa que buscamos ainda não foi escrita, cabe a nós sermos os autores.

Isso foi exatamente que um grupo de cientistas de renomadas universidades como Harvard e MIT se empenharam em fazer. O resultado do estudo de dois anos que contou com centros de pesquisas dos EUA, Brasil e Alemanha foi estampado nas primeiras páginas do prestigiado jornal científico Cell na edição de maio, no artigo “Evasion of NKG2D-mediated cytotoxic immunity by sarbecoviruses”, no qual sou primeira autora. O início de minha participação nesta pesquisa se deu apenas alguns meses após perder meu próprio pai para esta doença.

As recentes descobertas revelaram uma das estratégias surpreendentes empregadas pelo Coronavírus para escapar do sistema imunológico, driblando as defesas naturais do organismo. Isso significa que, uma vez que o elemento responsável pela fuga viral é identificado, é possível encontrar respostas para algumas questões que nunca antes foram desvendadas.

A pergunta mais latente que os cientistas se empenharam para responder foi: por que certos pacientes, mesmo não apresentando comorbidades, desenvolvem a forma severa da doença, apresentando um quadro de entubação e muitas vezes evoluindo ao óbito?

Desvendando a Interferência Viral: O Papel Crucial de MIC-A/B e 7C6 na Resposta Imune ao Coronavírus

Os vírus têm uma habilidade surpreendente de se esconder dentro das células do nosso corpo, usando-as como esconderijo para se reproduzir e se espalhar. No entanto, mesmo quando se escondem, deixam pistas que alertam o sistema imunológico sobre determinada infecção. Essas pistas são como sinais de socorro, indicando que as células foram invadidas por um vírus.

Quando as nossas células de defesa, como por exemplo a célula do sistema imune chamada Natural Killer (NK) ou Assassina Natural, detecta essas pistas, ela entra em ação tentando eliminar células que possuem sinais de infecção. As células NK possuem proteínas em sua membrana, que reconhecem proteínas como MIC-A/B, nas superfícies de outras células do corpo que sinalizam a presença interna do vírus.

Essa detecção é crucial para identificar e eliminar as células que estão abrigando o vírus. É como se as células NK fossem as guardiãs do nosso corpo, patrulhando constantemente para detectar e destruir qualquer célula que tenha sido comprometida por um vírus e MIC-A/B seriam as sinalizadoras do pedido de socorro.

A principal descoberta desse trabalho foi a de que o genoma do Coronavírus codifica uma proteína chamada ORF6 que se liga e remove as proteínas MIC-A/B da superfície de células infectadas. Uma vez que MIC-A/B são responsáveis por sinalizar a presença indevida de vírus, a ação de ORF6 cria uma espécie de “cegueira temporária” no sistema imune, dificultando a detecção do vírus no interior das células e silenciando o sinal de socorro que as células normalmente emitiriam.

Para comprovar que o vírus responsável pela COVID-19 realmente remove MIC-A/B da superfície das células infectadas, os pesquisadores buscaram uma maneira de impedir essa remoção protegendo MIC-A/B com alguma barreira física.

A hipótese era a de que se alguma outra coisa se ligasse primeiro à MIC-A/B, não haveria espaço para a ORF6 do vírus se ligar e remover MIC-A/B da superfície. Nesse caso, a barreira física usada pelos pesquisadores foi um anticorpo monoclonal chamado 7C6, atualmente testado em estudos pré-clínicos como um medicamento potencial contra o câncer.

Em outras palavras, o anticorpo 7C6 funcionaria como um “escudo” contra a ação da ORF6 viral, competindo pela ligação na MIC-A/B. Ao contrário do anticorpo ORF6, a ligação da 7C6 é amigável e não causa a remoção de MIC-A/B da membrana das células.

Os resultados deste interessante experimento mostraram que a presença de MIC-A/B no soro de pacientes foi menor quando o 7C6 foi utilizado, indicando que o vírus não foi capaz de remover MIC-A/B das células infectadas pois 7C6 se ligou primeiro à MIC-A/B.

Isso significa que as células NK, cuja função é detectar e destruir células infectadas, tiveram muito mais sucesso em encontrar o pedido de socorro das células infectadas e eliminar essas células, graças à permanência de MIC-A/B na superfície de células infectadas que estavam protegidas pela interação com o 7C6.

O sangue latino como protagonista das descobertas do estudo

A grande maioria dos participantes da pesquisa foram pacientes brasileiros, cujas amostras de sangue foram importadas a partir do estabelecimento de uma colaboração entre os pesquisadores da Harvard Medical School | Mass General Hospital e da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – SP.

Detectamos uma associação entre os níveis séricos de MIC-A e a gravidade da doença COVID-19, com pacientes que foram internados e intubados e os que evoluíram ao óbito apresentando o nível mediano de MIC-A muito mais alto. Essa parceria enriqueceu o conjunto de amostras e, consequentemente, os dados deste estudo, dando o papel de protagonismo para a contribuição brasileira na pesquisa científica global.

O Hospital de Clínicas da UNICAMP, na cidade de Campinas – SP, é um hospital de referência onde desempenhou uma atuação fundamental durante a pandemia, absorvendo um grande número de casos da cidade e região. Os dados coletados destes pacientes durante a hospitalização foram essenciais para que esta pesquisa internacional fosse viabilizada e mostram a importância do papel da pesquisa em conjunto com os hospitais na contenção de pandemias em tempo real.

Pesquisas deste porte, publicadas em um dos jornais científicos mais relevantes do cenário mundial evidenciam a importância da pesquisa brasileira e a formação de profissionais nesta área.

Essas descobertas não apenas fornecem valiosas e inéditas informações sobre a interação entre o vírus e o sistema imunológico, mas também trazem luz de esperança diante de uma nova abordagem muito promissora na imunoterapia antiviral. Esse estudo não só contribui ativamente no avanço e no desenvolvimento de terapias antivirais direcionadas, mas também em uma melhor compreensão dos mecanismos subjacentes à resposta imune. Isto pode ser decisivo no preparo de futuras pandemias que irão acontecer em um prazo muito menor do que gostaríamos.

Esta pesquisa foi desenvolvida sob a supervisão do Dr. Garcia-Beltran e Dra. Julie Boucau, além da contribuição do aluno de mestrado Jordan Hartmann, também autor do artigo.

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